Dizem que a gente não está no mundo só a passeio, creio eu também que se é pra passear ando caseira demais. Ando presa em sentimentos sem graça que esperam encontrar um espelho pra ter o seu reflexo.
Se do lado A do disco penso ser essa uma ‘razão razoável’ dada a vida e à forma de fazer dela algo de valor - dotada de sentido que encontra significado na relação com outro -, do lado B do mesmo disco concluo que é ingenuo ou fraco encontrar-se nessa condição.
Sim, porque é uma condição, percebida agora mais cedo quando voltei pra casa com a sensação do tempo correr pelas mãos e minha capacidade de trangredir os limites frágeis do espaço transformada num conformismo.
Lamentável para alguem que como eu gosta de andar pelas bordas do mundo.
Convenhamos que a cidade fragmentada não é o lugar de bordeiros, porque de certa maneira a tal categoria livre não traz aos meus pensamentos identificação alguma, acho que nunca me sentiria livre nos termos que muito pretendem. Anularia até essa idéia mas justifico minha ansia pelo não-reflexo de mim em outros na inconstancia de objetivos de vida que fazem dos bordeiros pessoas tal como xamãs, que andam pelo mundo humano e extra-humano, ou pensado de outra forma, não pertencem a eles e por isso não conseguem adentrar nem em um, nem em outro.
Ora o conforto de se apegar a uma posição exótica parece ao menos uma justificativa recorrente de cabeças pensantes e aventureiros meia-boca. Porem os aventureiros de boca-inteira são realmente livres já que não se importam com categorias – seja de libertade, seja de ser dotado de privilegio de andar entre mundos.
Dessa forma, consciente de minha condição bordeira-meia-boca errante entre um caminho palpavel e outro inventado pelas minhas idéias, imagino um projeto de vida que tem a obrigação de me surpreender.
É nesse sentido que vejo ser incompatível saborear sentimentos tão pequenos, (como ‘posse’ – mesmo que este seja fruto de ‘amor’) diante de um mundo que se apresenta como de ninguém ou de tantos seres que pouco importa compreendê-los sobre meus próprios conceitos fatídicos.
o que é pra ser vigora
por isso nem dúvidas me servem de contraceptivos aos sonhos.
2.11.09
1.11.09
Contra qualquer continuidade...
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Me leve daqui,
Mas não me olhe no fundo porque seu tempo voaria tal como meus pensamentos...
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Saia daí, se ponha em mim
Mas não amplie seus sonhos sobre os meus
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Eu queria mais, pode ser só um pouquinho, não tudo,
Porque aí a gente perde a graça
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29.10.09
refiro-me a minha ingrata maneira de ver como o consumo que empreendo de livros perpetuam minha ignorância
fajuta ignorância.
28.10.09
devo lhe revelar algo que escondo até de mim na frente do espelho.
mas antes argumento que minha narrativa pode se confundir com medo e esperança de entregar a alguem mais do que belas palavras, porque palavras, como já sabem alguns espertos seres, são sentimentos... sim, elas são índices.
essas palavras guardam uma relação de continuidade com meus sentimentos, com meus prazeres, desejos e sonhos, é como se cada sílaba e até os erros de concordância fossem produtos de estímulos sensoriais bem específicos, reais, sentidos e expressos em sinais de pouca compreensão.
lamento por tanto que há ainda para dizer, por que nas idealizações dos modos de agir que delimito ao meu espirito, os silêncios diriam mais e melhor; contudo percebo que isso é um engano inventado por mim nos dias de mais solidão, quando me percebo misturada entre tantos barulhos, sorrissos, fumaça de cigarro e cheiro de bebida.
essa é a intenção de se perder entre os mundos que se tocam em mim mas não consigo torná-los congruentes. fascínio talvez pela possibilidade de ser várias em lugares diferentes em intervalos curtos de tempo.
foi assim numa dessas personagens que saí pra rua para beber temporais e tornar-me nuvem pesada e cinza, como a da tarde de ontem.
de outra maneira, escrevi poesias para um amor que um dia pensei dar a você, porque juro que compreendia os fatos como acasos, e eventos como coincidências. hoje vejo como uma pura forma de manter a distância mínima entre nós, entre, na verdade, um nós que havia nas palavras desse blog, nos olhares que oferecia aos seus, nas tardes em uma cama ou entre os braços que meu corpo era envolvido em poucas noites do ano. refiro-me a uma vontade de dar ouvido às argumentações, às músicas, às leituras que fazem de você o que é.
mas uma outra pele tornou seu tempo como meu ou o meu tempo como o dela. foi como brincar na lama com as unhas feitas, sapatos novos, de salto alto; foi uma felicidade banal.
ao voltar aqui, ao mesmo lugar, não posso adimitir que já não o quero mais, porque quero. porém os pensamentos e a felicidade calmante que experimentei me alimenta o plano de ação que é não ser mais de outro que não se dispõe a receber de bom grado o que de bom grado lhe é oferecido.
14.10.09
escrever tornou-se uma guerra pra mim,
14.9.09
12.8.09
eu deixei de existir faz quatro semanas
nem me reconheço no espelho trazido de casa
me preocupo com a possibilidade de outros não saberem quem eu sou,
já que eu mesma não consigo acordar com meus sentidos
o que me faz ser o que antes era e hoje não mais. dói.
26.6.09
foi facil a iniciativa tomada por impulso como um corte no pulso que aqueles dão quando se encontram desesperados, ou como o pulo pra liberdade que outros dão quando a felicidade é tamanha que o tamanho do mundo é pouco e você sente ser capaz de abraçar o globo.
foi facil demais escrever palavras tortas
desenhar linhas certas
envirgular frases desconexas.
mas não é facil esquecer você.
você que em mim está e nem idéia faz, que ao beijar outro rapaz o nivelamento das sensações não é atingido e a escala negativa se transforma, como escala de um a mil, como um zero absorto sendo o equilibrio do meu desejo não saciado, nem pedido concedido.
espessa camada de tolerancia e inconstante fluxo de pensamento.
retomo meu amor por você como aquela instancia entre a meia vontade de bem-querer e meia vontade de bem-ser-querida. revelo dessa forma sem sentido o sentido sem conteúdo que meus lábios não pronunciam quando forçados assim fazer.
retrocesso de um tempo em que as lamentações e desesperanças misturadas ao desejo do corpo me forçavam a forçar o interesse seu por mim. hoje passo por uma fase igual, sendo eu a importunada pelo desejo do outro. sei agora muito bem a sensação de alguem que não sabe dizer não porque não sabe o quer, apenas o que não quer. e isso talvez seja já um passo, que sem direção pode se afastar do abismo entre nós e o resto do mundo.
depende, é claro, sempre da minha indumentária... do modo como vesti meus sonhos e a cor da bolsa de planos que escolhi usar. e não existe no mundo alma abalada que não se pense como a mais triste como a minha, que recorre vez ou outra à parede invisível da distancia controlada. o beijo na testa, o aperto de mão, a poesia lida, a musica feita sem melodia. detesta-se a distancia imposta [não pelos quilometros, mas pelo espirito e a desconfiança de entregar-se a alguem]. a fragilidade que sinto hoje me impede de procurar saidas de emergencia... é como um filme que começa e em poucos minutos te captura e invade a alma e você pode ver-se ali num mundo que nem pai nem mãe pode te proteger e o caminho te impele a andar com as próprias pernas.
22.6.09
existe uma afinidade eletiva entre minha idéia de ser e o imediatismo. não é a questão de querer tudo na hora e ao meu bel-prazer... se fosse assim, seria mais simples, menos complexo, mais calmo, menos doído. porque de uma maneira recalcada de dizer declamaria a pobre frase dos homens "querer é poder" e aquela outra consoladora "nem sempre querer é poder".
reafirmo:
não é mera discursividade vazia:
é sentimento sentido, coagido.
13.6.09
sobre as coisas que vivi me debruço e esmiuço
os quatro cantos com um canto de uma nota só.
recuar nessas horas é negar a existência
e posso tudo ser, menos covarde.
assim permaneço aqui com o pedido eterno
que a vida me dê fôlego
pra ser tudo o que pode vir a ser quem tudo quer.
10.6.09
inconfundivel a sensação de que as coisas por um certo tempo podem dar certo.
incompreensivel em certo ponto
porque se tudo fosse possivel entender
a graça do mundo estaria em outro mundo.
7.6.09
e eu preciso garantir a mim que minhas angustias não voltarão ao lugar de sempre, apesar delas serem como ondas de uma praia calma que regularmente entregam-se aos ventos que sopram do norte. irreconheciveis e enraivecidas destroem os castelos de areia dos pequenos projetos de gente, de sonhos e planos. reconheço que a garantia de mantê-las em calmaria não é um trabalho fácil e não é falsa a intensão de assim fazer. mas o arrepio até dos cílios grandes que as amigas elogiam quase sempre traduz a mentira contada por mim pra meu espírito.
foi o tempo que fiquei fora e me doei aos outros que contribuiu intensamente para o sentimento de desamparo que ataca as pernas e faz delas fracos instrumentos de caminhada. o ato de doar-se nem poderia ser de valor pra alguem que se consome na solidão de um quarto frio e escuro. ninguém sabe o que é sentir tão profundamente o desapego pelo futuro descompromissado que a vida impele aos despreparados. é inato. tenho certeza. são anos de solidão que nunca seriam esquecidos com um piscar de olhos. é cicatriz mal curada. relapso.
não entendo como foi possivel fugir da rota que desde meu nascimento o peso dos olhos denunciara o sentido. meu passeio por seu mundo me distanciou do meu próprio desvendando que quando menos quero ser de alguem mais sou de mim, e como conta inversa, ser de você não me permite ser de outro. foi dessa contrariedade de sentimentos que falei outro dia com o porteiro do prédio que não moro. dessa maneira me dei conta que fui mais "verdadeira" com alguem que nunca vejo do que quem sempre me vê nua e transparente.
como pode ser? é a relação fugaz que nem vestígios deixou sobre o suporte de vida. assim resumo a ópera pra quem de fora está e sem permissão me lê e com minha permissão não me quer. ando sem saber o que fazer e rompendo meus limites, invadindo fronteiras arbitrárias e à maneira despótica pretendendo o amor. como pisar em ovos é viver à sombra de planejamentos. não serei boa o bastante pra enfraquecer o discurso comum da singularidade, porque o que me dói é perceber que são tantos como eu e até os sentimentos que julgava tão leais a minha alma não passam de fragmentos de tantos outros solitários. reconheço que a garantia que preciso não encontro a venda, mas juro que daria meus prazeres em troca de um comprimido capaz de fazer de mim apenas apenas minha.
mas é "como se houvesse definidamente uma inimizade contra mim na teia incerta das coisas"
25.5.09
foi um frio na barriga.
de repente, um calafrio.
foi um sopro na nuca
seguido do dizer herdado de minha vó:
"passa morte que eu tô forte"
foi suspiro engolido.
soluço atravessado.
choro suprimido.
saudade sufocada.
e não me resta mais a fazer,
tão-somente lamentar.
