25.4.09
meus furos na orelha se fecharam, meus brincos não cabem mais em mim e os colares de sementes do fruto proibido não mais podem suportar o meu balanço, a minha nuca já não suporta também o peso do desejo. é quando releio meus e-mails e as discussões mais bizarras que podem ter duas pessoas sensatas, é quando também recrio o silencio do carro em movimento, quando percorro o caminho de socorro, e me alimento pela luz dos faróis dos onibus na via dutra. foi assim, comum e cotidiano das mais bisbilhotices. o amigo que me segredou as confusões do seu peito não sabia que estes eram os que eu mais escondia do homens comuns. e por medo de que meus segredos confusos se tornem poesia não escrevo por hoje e então os astros tomam direção contrária, meu humor é vivificado. porque vivi sem ele e por ele vivo agora. é disturbio, é deja vu, é esperança e medo com doses fortes de absinto.
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frag I
eu não consigo me desvencilhar
já faz 20 dias, v.i.n.t.e longos dias
involuntariamente essas aguas saem de mim
queria acreditar que é o sentimento de decepção que em outro estado físico sai do meu peito
mas isso, no fundo, sei que não é.
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frag II
minhas leituras cesaram quando passei a escrever mais
não retomo minha filosofia custeada por horas solitárias,
apenas me deixo aqui.
porque poesia em prosa é dificil fazer,
já poesia sem ritmo é filantropia:
nem todos são gênios, são poetas, artistas.
são os vômitos literários fazem o patamar de repugnancia se elevar
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frag III
posso procurar nos amigos o conforto que preciso agora, posso até conhecer pessoas novas, mas pra mim, isto não basta de mentiras subjetivas.
se me perguntam:
- está tudo bem? como você está?
a resposta é sempre a mesma, o tom também:
- sim, está tudo bem.
aí me pergunto porque fazemos assim? porque mantemos as coisas nesse padrão mediocre de tolerancia? por que eu mesma procurei ser tolerante? porque não respondi "enfie todos os momentos mágicos no seu cú"? a resposta eu invento: é porque eu mesma não consigo assim fazê-lo e a impotencia diante dos meus fluxos de pensamento ecoa por todo o corpo, fragil, pequeno, franzino.
aí percebo que meu espírito é mais sensivel que projeto ser.
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24.4.09
por cada qual que passasse por mim, sentia-se a melodia suave
o vento sublime
o gosto de mel
voltei ao meu corpo-lugar
pois era como se aquele assento fosse parte de mim
e com seis pernas me vi refletida nos olhos teus
p.s.:
p/ a cadeira vermelha do quarto que já faz parte de mim
22.4.09
Não há confessionário no mundo ou ouvidos que já não tenham se compadecido de minha situação, contudo por dias a fio escondi até do amigo mais chegado os desejos da alma, porque eles passam por cima da minha vergonha, se estabelecem como estandartes, se constroem como se fossem exteriores a mim. No fundo sei que é amor próprio que me falta e doi concluir isto numa noite fria sem companhia ou vislumbre de tal.
Não posso continuar aqui, nem fingir que não quero o que quero. Eu sei que a combinação não é a melhor, que intelecto e estatura não se encaixam, que um futuro comum aos dois não será palpavel, sei que é burrice manter as coisas nestes termos... Queria era que tudo o que escrevo, tivesse um sentido de verdade, um modo de tornar-se verdadeiro por seu autor em vida, em corpo, em carne.
Se sentir fosse o mais importante eu mesma não racionalizaria meus sentimentos, nem me colocaria numa fogueira por tensões que confundem meus pensamentos.
Isto não é publico mas não vale a pena esconder.
20.4.09
15.4.09
a conclusão [não tão concluida como fim de filme, mas talvez como fim de filme com dois finais - tal como aquele Stigmata] é que quando vc se mantem naquele estado de "estou ferrado" e/ou "o-mundo-não-é-tão-bonito-ou-bacana", você tem o que escrever com maior facilidade. você não, eu. sim prefiro escrever quando estou futricada, com a cabeça doída e a alma pesada. pois é que as palavras combinam melhor, as rimas ficam mais entoadas, o corpo do texto mais refinado... falar de felicidade é dificil pra mim, porque quando a tenho só sei vivenciá-la. talvez com o tempo isso melhore e sou otimista para crer suficientemente nisto.
11.4.09
o "tudo" não dá conta das sensações e peripécias com que a vida nos presenteia. as vezes o tudo é pouco e nem chega perto de uma definição satisfatoria. nem tudo passa e aqui reside o mais importante da experiencia cotidiana: o tudo não deve passar... se passar não aprendemos e caimos no erro de inúmeras maneiras diferentes. de resto o que passa não fica, o que passa marca pouco e rapídamente desaparece: é quando você tenta lembrar com quem assistiu aquele filme bacana pra caramba, ou quem dizia aquela frase que você repete agora como se fosse de autoria sua.
dá uma afobação no peito quando percebo que as coisas estão passando, quando o tudo se resume no momento oportuno de lembranças pequenas, e as sensações viram apenas estórias, ou quando o momento vivido vira um momento mágico...
desforma-se o bolo que solou. e ele é tão gostoso quanto aquele outro que o fermento fez crescer.
são os dois de gosto doce e o recheio é de libélulas com borboletas e abelhas que fabricam o mais puro mel. mas apenas algumas pessoas apreciam o bolo solado, a maioria morreria pra ver o outro crescido, aumentado. fui uma dessas e apenas quando dei-me conta que necessariamente não é assim, foi quando certifiquei-me que não é preciso que as coisas passem. me reservei o direito de liberar-me de minhas próprias imagens difusas daquilo que é sentir.
ai as minhas próprias imagens do sentir
e ai de mim quando reflito sobre minhas imagens do pensar
dúvidas e receios dão as mãos. a viagem pelo mundo se inicia e os sonhos de meia moça reconstroem o olhar imaturo mas bastante sensivel de quem está aqui porque não sabe por onde deve trilhar seu próprio rumo.
me prometo: não vou aperriar o corpo e mente. e por hoje chega.
8.4.09
rascunhei dezenas de bilhetes mas não entreguei. até que resolvi ligar e escrevi numa folha de papel o que diria, a folha molhou e já não conseguia entender as palavras em grafite 0,9 já que estavam embaralhadas com respingos de lágrimas e manchas de café. preferi o silencio, já que ele é companheiro mais fiel.
posso agora dizer que dói. dói muito confiar em si e mais ainda se responsabilizar pelo rumo que a vida toma. não acredito em amor, e as poucas pessoas que me conhecem sabem desse meu pensamento, precisamente quando depois de algumas doses de alcool a filosofia amorosa da dona jaque salta pelos lábios e numa linguagem pouco articulada misturada ao sotaque indefinido eu sopro aos quatro ventos que o amor não existe, é inventado, é cultural, que no fundo, quer seja o amor, quer seja o romance, é uma resposta muito bem elaborada por seres sentimentalistas à necessidade de prazer que todo homem tem. acredito muito mais na companhia, na cumplicidade. não sou especialista nesse tipo de coisa. só sei que dói e o que causa dor não é bom pra ninguem. gosto das diretrizes que embasam a vida de maneira simples e me proponho a resolver meus dilemas de modo prático, mas é dificil meu camarada. é dificil porque a nossa vontade escapa dos planos mais racionais.
hoje, o dia que deveria estar demonstrando meu amor por aquele ser que me colocou no mundo, que me orienta e conhece como ninguém, a situação foi contrária. ela que com sua cumplicidade, me abraçou e sua respiração e o meu resfolegar misturaram-se. não queria que fosse assim e gostaria muito de fingir estar tudo bem por esses dias, mas minha expressão e os olhos fundos não deixam que eu me engane e minta a mim mesma diante do espelho, muito menos diantes daqueles que gosto.
7.4.09
1.4.09
nos meus ouvidos naquela doce melodia
ele acendeu as lâmpadas do meu quarto e sussurrou poesias.
estava nas rodelas de abacaxi gelado que comi ontem a noite
em pensamento no cinema gelado
na boca de pessoas belas e imundas
nos quadros e fotografias
ele estava onde eu podia ver
estava ao alcance da mão
materializado
em concretude
pude saber o peso dele,
medir suas dimensões
dessa vez não deixei escapar, fui atras e talvez seja esse apenas o começo do maior amor da minha vida.